Lá longe, bem longe daqui, o Sol, todo radiante, flerta com as ondas do mar.
As ondas se contorcem de timidez. São tão bobas… Amornam e coram.

Então, do calor, sobe um véu fino que cobre de leve o mar embaraçado.
É aí que aparecem as nuvens.

O Vento, todo metido, apressa-se em soprá-las para longe. Lá para a terra. Onde elas se desmancham em gotinhas que se perdem no ar até atingirem a grama. Fazendo música nas folhas verdes que dizem aliviadas: “Ahh… que refrescante.”


Num auditório de um colégio qualquer, uma professora sobe no palco para falar sobre alguma coisa que não lembro bem o que era.
Para acalmar os alunos eufóricos, ela promete uma surpresa e faz um sorteio improvisado apontando um garoto qualquer na multidão.

– Humm… Timótio! Você. Você é quem vai ganhar o presente. Agora todos fiquem calmos que sorteio outro depois.

O garoto, logo que ouviu seu nome, apressou-se em responder a professora na sala agora em siêncio.

– Eu? De novo? Eu ainda estou esperando o presente que a senhora prometeu da outra vez. Fico pensando se esse vai ser mais um dos que vou ter de esperar um tempão e nunca vou receber.

A professora replicou.

– Ah, vai receber sim. Não se preocupe. É que ando ocupada e minha casa está uma bagunça. Mas sempre o procuro para trazer. Assim que o encontrar, trago.

– Sabe… isso é que me deixa triste. Cada uma destas vezes em que você fala que está procurando mas, na verdade, não faz um pingo de esforço para cumprir o que prometeu. E ainda me diz que vai trazer. Porque você acha que isso não me doi?

– Timótio, você é só um menino! Não se preocupe com essas coisas. Logo, logo seu presente virá.

– Ah… então, como sou menino, devo esquecer que tenho sentimento? Ou… você acha que não tenho sentimentos porque sou um menino?

O silêncio da sala transforma-se num barulhento cochichar de idéias diversas mas que, pelo tom, pareciam em maioria concordar com o garoto falador.


Palhaços mortos
viram narizes novos.

Mascaras de vida colorida
vestidas para trazer alegria.

O nariz é a alma do palhaço
alma de algum palhaço…
que nem sempre sorria.


Quando a gente se dá um pouquinho mais de liberdade, enxerga coisas diferentes…  fala coisas diferentes… sente coisas diferentes.
Sente, inclusive, que sempre teve toda a liberdade de que precisou.

Mas a parte delicada é que liberdade é rebelde. Arisca. Difícil de lidar.
Eis então o contra-senso. Para ter liberdade é preciso deixa-la sair, mas solta, dificilmente se sujeita as vontades do dono (se é que tem dono…).


Daqui a três gerações os seres humanos não possuirão mais suco gástrico em seus estômagos. A função de digestão será realizada por agentes externos que, aliás, já são bem presentes nos tempos de hoje.
Conhecidos como refrigerantes, estes líquidos serão responsáveis por transformar as susbstâncias ingeridas em algo assimilável por nosso organismo.

Mas, não se preocupem. Não vai doer nada. Isso acontecerá como uma mudança natural. Devido ao excesso de consumo desta bebida, o corpo entenderá que, se já vem tanto ácido de fora, não é preciso produzir nenhum do lado de dentro.

Ahh… Como é bom saber que somos seres capazes de evoluir…


Havia uma menininha
que não tinha fome
mas chorava e esperneava para que sua mãe
lhe comprasse um grande pirulito
durante o passeio no parque de diversões.

A fim de acalmar a filha
a mãe comprou o doce
que foi devorado num piscar de olhos
trazendo devolta o choro
afiado como foice
que pedia por mais.

Cansada, já muito irritada
comprou novas guloseimas e disse a garotinha
que fosse dar uma volta na roda gigante.

E quando a filha chegou lá no alto
o último pirulito havia acabado.

Ela levantou berrou e gritou para que sua mãe lhe desse mais.
Balançava-se e chorava como uma criança mimada
até que o inevitável aconteceu.

Caiu do lugar mais alto
e com a velocidade de um raio
acertou a carrocinha de algodão
que apesar de doce e macio como núvem
não foi capaz de conter o rubro que espalhou-se pelo chão.

Seu corpo achatou como panqueca,
seus olhos atiraram-se pela areia
e apesar de toda a sujeira
havia um sinistro colorido em seu rosto.

Caramelos e balas enfeitavam os espaços
outrora decorados com olhos exigentes.

E em sua mão
ainda fechada firmemente
o último palito
encravava um daqueles com os quais enxergava anteriormente.

Olhos por doces…
Corpo por espírito…

Ainda hoje, à tardinha
quando os parques estão fechando
alguns juram poder ver
uma pequena menininha que caminha sem saber.

Como no dia em que caiu,
os buracos vazios de seu rosto
são ocupados por delícias de açucar
e em sua mão, um palito
que traz na ponta um de seus olhos.

Lambendo-o a cada passo, ela simplesmente vaga
como aroma torpe
por toda noite
até a alvorada.


Como muitos outros leitores, eu não poderia deixar de falar daquele que é, para mim, um dos mais incríveis livros já escritos na história da humanidade. Mas não vou fazer como a maioria, que procura desesperadamente uma oportunidade de mostrar seu profundo entendimento sobre todos os aspectos da maravilhosa história narrada por Antoine de Saint-Exupéry.

Acho que, mais importante que explicar o significado do livro, é avisar a todas as pessoas (crianças, jovens e adultos) sobre a importância de lê-lo.

Acredito que, como toda obra de arte, esta está sujeita a interpretações particulares de acordo com o entendimento de cada um… sua imaginação, seus sonhos e sua vida. Desta forma, não é certo taxar com significados fixos as belas passagens sobre a viagem do principezinho.

A história, recheada de metáforas (ou não…), faz brilhar os olhos a cada pagina repleta de sensibilidade e verdades profundas. As ilustrações do autor, inesquecíveis e sem igual, deslisam para a memória e lá se acomodam com uma suavidade acolhedora. Não tenha dúvidas de que, no futuro, ao se deparar com qualquer retrato de um chapéu, seus lábios desenharão um sorriso sutil enquanto jibóias abertas e fechadas povoarão sua mente em um breve momento de nostalgia.

Gostaria principalmente de registrar aqui o quão importante foi para mim lê-lo quando criança e, mais tarde, como uma criança maior (já que nunca fui capaz de crescer totalmente… :}).
Quando era pequeno, minha mãe o leu para mim, salpicando em minha vida um pouco de mágica e fantasia que certamente colaboraram para me fazer como sou hoje. Anos mais tarde reencontrei-me com o livro, que apareceu como um anjo em um momento muito difícil. Relê-lo foi como renovar o espírito. E pude encontrar forças e esperança para seguir em frente e atravessar as provações que me cercavam naquela época.

Por isso, digo que este livro ensina sobre as coisas mais importantes de todos os mundos: amar e viver. E não é preciso ser grande entendedor de coisa alguma para saboreá-lo. Pois ele nos conta tudo o que precisamos saber de forma deliciosamente simples.

Como tenho plena consciência de meu facínio, sei que voltarei a escrever aqui sobre este assunto. Mas, nunca trarei comigo a pretenção de dizer que “entendí a história em sua totalidade”. Pois a verdade é que a entendí como ela se apresentou a mim. E isso já me basta.:)




Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.